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A TV que vira espelho das 15 às 17 horas
Com a tela de frente pra janela, a tarde aparece por cima do filme. Mudar a TV de parede e girar o sofá 90 graus apaga o reflexo.
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Janela de lado, tela sem reflexo
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Domingo, três e dez da tarde, uma sala de 3,20 por 4 metros num apartamento em Curitiba. A janela de correr, de 2 metros de largura, ocupa quase toda a parede virada para o oeste. Na parede oposta, de frente pra ela, fica o painel com a TV de 55 polegadas, e entre as duas, o sofá de três lugares, de costas para o vidro.
O filme começa às três. Nos primeiros minutos a imagem está nítida. Perto das três e meia, o sol desce o suficiente para entrar quase na horizontal, e a tela escura de uma cena noturna passa a mostrar outra imagem por cima: o retângulo claro da janela, a silhueta da cortina, o encosto do sofá e a cabeça de quem está sentado nele.
A reação de quase toda casa se repete. Alguém levanta, fecha a cortina blecaute, e a sala mergulha numa penumbra artificial no meio da tarde. O filme volta a aparecer, e a luz que entraria de graça entre as 15 e as 17 horas, as mais claras da sala, fica do lado de fora do vidro.
Subir o brilho da TV adianta pouco. O reflexo cresce junto com a claridade da janela, e uma tela de vidro ou de acabamento brilhante funciona, nessa hora, como um espelho escuro. Nas cenas claras, a janela some; nas escuras, ela domina, porque a tela tem pouca luz própria para competir com o céu refletido.
A causa está numa regra que vale para qualquer superfície lisa: a luz bate e volta com o mesmo ângulo com que chegou, como a bola de sinuca que bate na tabela. Com a janela bem na frente da tela, o caminho de volta do reflexo cai exatamente nos olhos de quem está no sofá.
A janela não muda de lugar, mas a tela pode mudar de parede. O texto abaixo começa pela leitura da sala às três da tarde, para saber de onde vem a luz e em que ponto ela volta.
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I O Ambiente de Hoje
A tarde que bate de frente na tela
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A janela virada para o oeste recebe sol direto a partir do meio da tarde, e nessa hora a luz entra baixa, quase paralela ao piso. De manhã o sol passa por cima do prédio e ilumina a sala de forma indireta; depois das três, ele desce para a altura da janela e atravessa o cômodo até bater na parede oposta.
É justamente a parede da TV. A luz que chega até ela pinta um retângulo claro no painel e na tela, e mesmo a parte que não recebe sol direto reflete o vidro iluminado da janela. Nessas duas horas, a janela é a fonte de luz mais forte da casa, muito acima de qualquer lâmpada acesa.
Dois tipos de reflexo entram em jogo. O reflexo especular (o que devolve uma imagem nítida, como um espelho) acontece em tela brilhante e mostra a janela com contorno definido. O reflexo difuso (o que espalha a luz sem formar imagem) acontece em tela fosca e deixa o filme lavado, com o preto virando cinza.
As telas foscas, de acabamento antirreflexo, diminuem o espelho sem eliminá-lo: trocam a janela nítida por uma mancha leitosa. As brilhantes, comuns nos modelos OLED (a tecnologia em que cada ponto da tela acende sozinho) e em muitos de LED, entregam preto mais profundo à noite e o pior reflexo à tarde.
Para confirmar o diagnóstico, basta um teste de dois minutos. Com a TV desligada, sente no lugar de sempre do sofá às três e meia e olhe para a tela preta. Tudo o que aparece nela, a janela, a luminária, a camiseta branca, vai disputar com o filme quando a TV ligar.
Por que a cortina e o brilho perdem a disputa
A cortina blecaute resolve o reflexo e cria outro problema: a sala fica escura no horário de luz mais bonita do dia e passa a depender da lâmpada às três da tarde. A cortina de voil (o tecido fino e translúcido) suaviza a luz, mas ainda deixa um retângulo claro, que aparece na tela como névoa.
Aumentar o brilho da TV ajuda nas cenas claras e quase nada nas escuras. O reflexo depende do quanto a janela está clara, e no meio da tarde ela ganha de qualquer televisor doméstico.
Inclinar a TV num suporte articulado muda o ângulo alguns graus, e o reflexo desliza para o lado ou para cima. Funciona quando a janela é pequena. Com uma janela de 2 metros, o retângulo de luz é largo demais para sair inteiro do campo de visão com uma inclinação.
A saída está em mudar a relação entre três pontos: a janela, a tela e os olhos. Enquanto os três estiverem alinhados numa reta, o espelho volta toda tarde.
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II A Ordem que Resolve
Janela de lado, tela na parede vizinha
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A ordem da sala é esta: tirar a TV da frente da janela, levá-la para uma parede perpendicular a ela, girar o sofá 90 graus para encarar a tela e só depois pensar em cortina.
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Parede perpendicular é a que forma um canto reto com a parede da janela, à esquerda ou à direita dela. Com a tela ali, a luz da tarde passa de lado, rente ao vidro, e a pequena parte que bate na tela volta para o outro lado da sala, longe do sofá.
Com o sofá girado 90 graus, a janela fica à esquerda ou à direita de quem assiste. A luz chega pelo lado do rosto, ilumina a sala inteira e não entra nos olhos nem na tela. A mesma lógica orienta a mesa de trabalho bem posicionada: janela de lado, nunca de frente nem de costas.
Escolher entre as duas paredes perpendiculares pede um critério. A melhor é a que tem a tomada e o ponto de internet mais perto e deixa a porta de entrada fora do caminho de quem olha a tela. Se nenhuma tem tomada, uma canaleta de sobrepor (o tubo plástico colado na parede, que esconde o fio) leva a energia sem quebrar o reboco.
A distância também muda. A TV que ficava na parede de 3,20 metros passa para uma das paredes de 4, e o sofá vai para a parede oposta a ela. A distância entre os dois vira a largura da sala, 3,20 metros, menos os 90 centímetros de profundidade do sofá: uns 2,3 metros até a tela, uma distância confortável para 55 polegadas.
Dois lados de luz na mesma sala
O arquiteto austríaco Christopher Alexander passou a carreira observando como as pessoas usam os cômodos de casa e, com a equipe que reuniu em Berkeley, na Califórnia, registrou uma preferência que explica por que a sala de cortina fechada fica vazia.
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"Quando têm escolha, as pessoas sempre vão para os cômodos com luz de dois lados e deixam vazios os cômodos iluminados de um lado só."
Christopher Alexander, A Pattern Language (Uma Linguagem de Padrões), 1977
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A sala com uma janela só não ganha um segundo lado de luz, mas ganha o mais próximo que a planta permite: a luz deixa de vir de frente e passa a correr ao longo do ambiente, iluminando o sofá, o tapete e a parede da TV sem que nenhum deles vire espelho.
O ganho vai além do filme. A sala que passava a tarde de cortina fechada recebe o sol até o fim do dia, e quem lê no sofá tem a página iluminada pelo lado, sem a sombra da própria cabeça sobre o papel.
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