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As 2 cadeiras que fecham a porta da varanda
Na varanda de 1,20 metro, cadeiras frente a frente travam a porta de correr. Lado a lado, contra a parede e viradas pra vista, liberam o caminho.
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Cadeiras na parede, porta de correr livre
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Sábado, quatro da tarde, varanda de um apartamento em Florianópolis. Duas cadeiras de fibra sintética estão frente a frente, uma de costas para o guarda-corpo, a outra de costas para a porta de vidro, com uma mesinha redonda entre elas. A varanda tem 1,20 metro de profundidade, e o conjunto ocupa quase tudo.
Quem vem da sala com duas xícaras de café abre a porta de correr e para. A folha de vidro desliza, mas o encosto da cadeira está a um palmo do trilho. Para chegar ao assento, a pessoa gira o corpo, passa de lado entre o encosto e o batente, e o café balança no pires.
Quem já está sentado recolhe as pernas. Os joelhos das duas pessoas quase se tocam debaixo da mesinha, e quem quer voltar para a sala pede ao outro que puxe a cadeira para a frente.
A conta explica o aperto. Uma cadeira de varanda com braço tem entre 55 e 65 centímetros de fundo, medidos da ponta do assento às costas do encosto. Duas delas, uma diante da outra, somam mais de 1,10 metro. Na profundidade de 1,20, sobra um palmo, e a mesinha já mora nele.
A reação mais comum é trocar as cadeiras por banquinhos ou comprar uma mesa dobrável. O aperto continua, porque o problema está na direção para onde as cadeiras apontam, e o tamanho delas pesa pouco na conta.
A saída custa zero real: girar as duas cadeiras. Lado a lado, com as costas contra a parede da fachada e o assento virado para a vista, elas gastam o fundo de uma cadeira só. O resto da profundidade vira caminho, e a porta de correr volta a abrir para um chão livre.
Antes de arrastar a cadeira, vale entender por que a varanda estreita cai nesse arranjo com tanta frequência, e por que o costume trazido da sala de estar é o que trava a porta. O texto começa por essa conta, feita do trilho ao guarda-corpo.
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I O Ambiente de Hoje
O palmo que sobra entre os joelhos
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A varanda dos apartamentos compactos costuma ter entre 1 e 1,50 metro de profundidade, e a porta de correr ocupa boa parte da parede da fachada. Com essa planta, qualquer móvel posto diante da porta vira obstáculo para quem entra.
O arranjo frente a frente vem da sala de estar. Duas poltronas viradas uma para a outra servem à conversa, e a foto de catálogo mostra o par com uma mesinha no centro. Na sala, a cena funciona porque há chão atrás de cada encosto. Na varanda, atrás de um encosto está o guarda-corpo e atrás do outro está o vidro da porta.
A cadeira de costas para a porta é a que trava. O encosto fica a poucos centímetros do trilho, e a folha de vidro, ao correr, abre para um vão já ocupado. Quem sai da sala precisa contornar a cadeira, e na varanda estreita falta chão para contornar.
A cadeira de costas para o guarda-corpo tem outro defeito. Quem senta nela vê a porta, a cortina e o sofá da sala, e deixa a paisagem pelas costas. Metade dos lugares da varanda olha para dentro do apartamento.
Há ainda as pernas. Sentada, uma pessoa apoia os pés uns 40 centímetros adiante da borda do assento. Frente a frente, as duas disputam o mesmo palmo de chão, e a mesinha, no meio, fica entre as canelas.
A cadeira de fibra agrava o quadro por ser leve. Cada vez que alguém levanta, ela recua alguns centímetros e bate no vidro ou no parapeito, e o arranjo precisa ser acertado de novo antes da próxima pessoa sentar.
Por que a direção pesa mais que o tamanho
Uma cadeira ocupa o chão em duas medidas: a largura e o fundo. Na varanda estreita, a medida que decide tudo é a que corre no sentido da profundidade, do trilho ao guarda-corpo. Frente a frente, as duas cadeiras põem o fundo nesse sentido, e os dois fundos se somam.
Lado a lado, as cadeiras põem o fundo contra a parede e a largura correndo ao longo da varanda. A profundidade gasta cai para a de uma cadeira só, e a largura das duas se espalha pelo comprimento, que numa varanda de 3 metros é a medida que sobra.
Daí que trocar a cadeira por uma menor rende pouco. Um modelo mais enxuto tira 5 ou 10 centímetros de cada fundo e mantém a soma no sentido errado. O ganho grande está em girar o par, e girar não exige comprar nada.
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II A Ordem que Resolve
As costas na parede, os olhos na vista
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A ordem da varanda é esta: primeiro achar o trecho de parede sem porta, depois encostar as cadeiras viradas para a vista, por último dar à mesinha um lugar fora do caminho.
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O trecho certo fica longe do vão da porta de correr. Meça a parede da fachada de ponta a ponta e marque com fita crepe onde a folha de vidro corre quando abre. O que sobra fora dessa marca é parede cega, e é ali que as cadeiras moram.
Em muitas plantas, a porta fica encostada numa das pontas da varanda. Numa varanda de 3 metros com porta de 1,50, sobra 1,50 metro de parede cega de um lado só, e duas cadeiras de 65 centímetros de largura cabem ali com folga para um vaso.
Se a porta abre bem no centro da fachada, a parede cega se divide em duas pontas de 75 centímetros. Nesse caso, cada cadeira vai para uma ponta, as duas continuam viradas para a vista e o vão da porta fica livre no meio, como um corredor que leva direto ao guarda-corpo.
Encostar não significa colar. Deixe quatro dedos entre o encosto e a parede, para a cadeira reclinar sem riscar a pintura e para a água da chuva escorrer sem ficar presa atrás do assento.
Viradas para o guarda-corpo, as cadeiras mudam a função da varanda. Quem senta vê a rua, o mar ou o prédio da frente, e a conversa acontece ombro a ombro, como num banco de praça. Os pés, estendidos, ocupam a faixa diante do assento, que passa a ser o trecho de ficar, separado do trecho de passar.
A mesinha que sai do meio
A mesinha perde o posto central, mas o café continua precisando de apoio. Uma mesa lateral baixa, de uns 40 centímetros de diâmetro, entra entre as duas cadeiras, encostada na parede, ao alcance das duas mãos.
Varanda muito estreita dispensa até a mesa lateral. A mesa de guarda-corpo (uma bandeja que se prende no parapeito por encaixe, sem furo) segura xícara e livro diante de quem está sentado e deixa o chão inteiro livre.
Plantas seguem a mesma lógica. O vaso grande vai para a ponta cega, junto das cadeiras, e as espécies menores sobem para a parede em suportes suspensos, longe do trilho da porta.
O arquiteto suíço Le Corbusier resumiu numa frase o critério que decide se a varanda está bem arrumada.
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"A casa é uma máquina de morar."
Le Corbusier, Vers une architecture (Por uma Arquitetura), 1923
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Uma varanda em que a cadeira bloqueia a porta falha como máquina no primeiro movimento, que é entrar nela. Lado a lado, as mesmas duas cadeiras cumprem a função sem peça nova e sem gastar um real.
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