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Os 56 centímetros de cada lado da cama queen
No quarto de 2,70 metros, a cama no centro deixa duas passagens estreitas. Com uma lateral na parede, sobra um corredor de 1,12 metro.
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Cama na parede, corredor livre do outro lado
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Onze da noite, quarto de casal num apartamento em Belo Horizonte. A cama queen foi montada bem no meio da parede da cabeceira, com um criado-mudo de cada lado, do jeito que aparece no catálogo da loja. O quarto tem 2,70 metros de largura, e a cama ocupa 1,58 deles.
Quem dorme do lado da janela levanta de madrugada para beber água. Passa de lado, a canela raspa na quina do estrado, o joelho encosta no criado-mudo e o copo que estava em cima balança. De manhã, o outro lado repete o trajeto com a porta do guarda-roupa aberta, e a porta bate no colchão antes de abrir inteira.
A conta é curta. Tirando 1,58 de 2,70, sobram 1,12 metro, divididos em duas faixas de 56 centímetros. Parece bastante no papel. Na prática, cada faixa ainda perde espaço para o rodapé, para o criado-mudo e para a saia do edredom que cai para fora do colchão.
A folga que projetistas de interiores usam como piso para uma pessoa andar de frente, sem girar o ombro, é de 60 centímetros. Os dois lados ficam abaixo dela ao mesmo tempo, e nenhum dos dois vira passagem de verdade.
A reação comum é trocar os criados-mudos por modelos mais finos, ou tirar um deles. Ganha-se um palmo aqui e ali, e as duas faixas continuam estreitas, porque o aperto nasce da divisão do espaço, e a mobília pesa pouco nela.
A saída é encostar uma lateral da cama na parede. Os 1,12 metro deixam de ser repartidos e viram um corredor só, largo o bastante para duas pessoas se cruzarem ou para a porta do guarda-roupa abrir por completo, com alguém parado na frente dela.
Antes de mover o estrado, vale entender por que o quarto de 2,70 metros cai nessa armadilha com tanta frequência, e por que a simetria que parece arrumada é justamente a que aperta. O texto começa por essa conta, feita parede a parede.
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I O Ambiente de Hoje
A conta que o colchão esconde
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A cama queen brasileira mede 1,58 por 1,98 metro, e o quarto de casal dos apartamentos compactos costuma ter entre 2,60 e 3 metros de largura. Com esses números, a cama no centro sempre deixa duas faixas abaixo do piso de passagem.
O tamanho queen ganhou as lojas porque dá a cada pessoa quase 80 centímetros de colchão, contra os 69 da cama de casal comum, de 1,38 metro. O colchão maior entra no quarto sem esforço. O aperto aparece na volta dele, no chão que sobra.
Centralizar a cama é o reflexo de quase todo mundo. A cabeceira no meio da parede parece equilibrada, os dois lados ficam iguais e ninguém dorme encostado no reboco. A simetria agrada o olho de quem entra no quarto e cobra de quem circula nele.
Os 56 centímetros de cada lado são medida bruta, de parede a colchão. Na altura da cabeceira, o criado-mudo ocupa quase toda a faixa. Do criado-mudo até o pé da cama, a passagem perde ainda o rodapé e a saia do edredom, que cai alguns centímetros além da borda do colchão.
Muitos estrados do tipo box (a base estofada que sustenta o colchão) também são um pouco mais largos que o colchão, e a quina deles fica exatamente na altura da canela. Quem passa de lado não enxerga essa quina no escuro.
Por que a passagem pede 60 centímetros
Uma pessoa andando de frente ocupa a largura dos ombros e mais o balanço dos braços. Abaixo de 60 centímetros, o corpo gira sozinho e passa de lado, com o quadril roçando o que estiver perto. É o movimento de quem atravessa o corredor de um ônibus cheio.
A porta de abrir do guarda-roupa agrava o quadro. Ela precisa da largura da própria folha para girar e ainda do espaço do corpo de quem puxa. Numa faixa de 56 centímetros, a porta encosta no colchão e para no meio, e quem procura uma camisa tem de enfiar o braço pela fresta.
O resultado é um quarto em que os dois lados da cama servem mal. Ninguém tem passagem boa, e o espaço que existe, somado, daria um corredor confortável.
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II A Ordem que Resolve
Uma lateral na parede, a outra livre
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A ordem do quarto é esta: primeiro escolher qual lateral vai para a parede, depois proteger quem dorme do lado encostado, por último redistribuir o que ficava nos criados-mudos.
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A lateral certa para a parede é a que fica longe da porta do quarto e do guarda-roupa. O corredor de 1,12 metro precisa ficar do lado em que as pessoas entram, abrem portas e se vestem. Se a porta do quarto e o armário estão em lados opostos, vale a lateral que tira a porta do armário do aperto.
Quem dorme do lado da parede sai pelo pé da cama. Para esse trajeto funcionar, o pé precisa de passagem própria: meça do pé do estrado até a parede ou o móvel em frente. Com 60 centímetros livres ali, a pessoa desliza pelo colchão e desce sem pular por cima de ninguém.
Colchão encostado no reboco pede um cuidado. A parede fria transfere o frio no inverno e, em apartamento com pouca ventilação, junta umidade na lateral do colchão. Deixe dois ou três dedos de folga entre o estrado e a parede, para o ar circular.
Essa lateral também merece acabamento. Um painel estofado colado com fita dupla face na parede, na altura do colchão, funciona como uma cabeceira que dobra a quina: protege o ombro do frio, abafa o toque no reboco e faz a cama parecer planejada para aquele canto.
O criado-mudo que sai da parede
O criado-mudo do lado encostado perde o lugar, mas o que ele guardava continua precisando de endereço. A prateleira de encaixar na cama resolve: uma bandeja estreita que prende na lateral do estrado por pressão, sem parafuso, e segura celular, óculos e copo d'água.
A luz de leitura sobe para a cabeceira. Uma luminária de clipe (a que prende por pinça, sem base no chão nem fio embutido) presa na borda da cabeceira ilumina o livro de quem está do lado da parede sem ocupar um centímetro do corredor.
O criado-mudo que sobra fica do lado livre, e agora cabe com folga. Numa faixa de 1,12 metro, ele ocupa a cabeceira e ainda deixa mais de meio metro de passagem na frente dele.
O designer inglês William Morris resumiu a pergunta que decide o que fica e o que sai de um quarto pequeno.
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"Não tenha nada em sua casa que você não saiba ser útil, ou não acredite ser belo."
William Morris, The Beauty of Life (A Beleza da Vida), palestra de 1880 publicada em Hopes and Fears for Art, 1882
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O segundo criado-mudo, espremido em 56 centímetros, falhava nos dois testes: era pouco útil, porque ninguém alcançava a gaveta, e pouco belo, porque a quina dele era o que machucava a canela.
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